segunda-feira, 19 de setembro de 2016

TEXTÃO: Pensando a partir das considerações da mesa Gestão Cultural para a Promoção de Cultura Livre


Na mesa inaugural do 1º Congreso On Line de Gestión Cultural, cuja videoconferência com a participação dos cinco projetos selecionados ocorreu na última quinta (15.09), o debate girou em torno de processos de gestão de inciativas de cultura livre. Nessa discussão, ficou exposto na fala dos palestrantes um incômodo que sinto desde que comecei a ver as palavras gestão e cultura livre juntas: como aliar o conceito de gestão, diretamente relacionado ao vocabulário capitalista e empresarial, com a ideia de cultura livre? Essa foi uma questão que surgiu em quase todas as falas e, em muitos casos, se destacavam também as dificuldades e contradições que se sentia em torno à gestão da cultura livre.

A aparente dificuldade prática dessa relação começa, pra mim, na relação contraditória que essas duas ideias, que vêm de estruturas discursivas distintas, estabelecem. Segundos os sociólogos franceses Eve Chiapello e Luc Boltanski, a reestruturação do capitalismo durante os anos 1980 e 1990 ocorreu em torno dos mercados financeiros e da apropriação do âmbito da cultura, gerando o que eles chamam de novo espírito do capitalismo. O importante dessa definição é compreender que essa reestruturação do capitalismo, para ser efetiva, necessitou recorrer de maneira forte à elaboração de um novo vocabulário, criando termos que se referiam à gestão empresarial e financeira, mas que acabaram alcançando o nível cultural mais amplo, sendo usados inclusive para se referir ao universo artístico e da produção cultural. E como processo ideológico que é, tanto quem era a favor como quem era contra passou a usar os mesmos termos para nomear processos similares. Segundo os autores:
O espírito do capitalismo é justamente o conjunto de crenças associadas à ordem capitalista que contribuem para justificar e sustentar essa ordem, legitimando os modos de ação e as disposições coerentes com ela. Essas justificações, sejam elas gerais ou práticas, locais ou globais, expressas em termos de virtude ou em termos de justiça, dão respaldo ao cumprimento de tarefas mais ou menos penosas e, de modo mais geral, à adesão a um estilo de vida, em sentido favorável à ordem capitalista. Nesse caso, pode-se falar de ideologia dominante, contanto que se renuncie a ver nela apenas um subterfúgio dos dominadores para garantir o consentimento dos dominados e que se reconheça que a maioria dos participantes no processo, tanto os fortes como os fracos, apoia-se nos mesmos esquemas para representar o funcionamento, as vantagens e as servidões da ordem na qual estão mergulhados. (BOLTANSKY & CHIAPELLO, 2009, p.42)

Com o perdão da citação, meu interesse aqui é entender porquê processos de cultura livre, que se contrapõem diretamente às formas de produzir, distribuir e consumir cultura que se consolidaram (ou se radicalizaram) nesse período da década de 1980 também utilizam esse vocabulário técnico-empresarial. Como a ideia de gestão, que se relaciona com a maximização dos lucros ou dos resultados, pode ser utilizada no seio de um pensamento que pretender, mais do que lucro, pensar a viabilidade de projetos que não pretendem ser comercializados ou fechados?

Comecei a ver a conferência tendo essa inquietação em mente e achei interessante como o debate foi iniciado. A pergunta que inaugurou a mesa, “qual a chave da sustentabilidade de projetos de cultura livre?” levou a várias reflexões sobre como não só pensar formas de tornar viáveis projetos de cultura livre, mas pensar a própria existência desse tipo de proposta dentro de um sistema econômico cultural baseado na noção de lucro e investimento.

O representante de Panorama 180 Andreu Mixidie, grupo organizador do festival BccN, foi o primeiro a debater a questão e o que mais demonstrou incômodo e incerteza em torno da questão da sustentabilidade de projetos culturais. Levando a questão a um debate mais filosófico, pensava sustentabilidade em termos mais amplos e tentava não reduzir o tema a uma única resposta possível.

Já a representante de Ediciones La Terraza, Barbi Couto, colocou a questão da sustentabilidade em um terreno mais prático. Sendo uma editora que propõe publicar livros ilustrados usando licenças creative commons e financiamentos alternativos (croudfunding, entre outros), Barbi Couto situou a questão da sustentabilidade no seio do mercado editorial. Considerando dificuldades como distribuição e comercialização de livros dentro desse mercado amplo e disputado e, também, tendo em conta o tamanho da editora, Barbi Couto considera que o fato de terem optado por focar na cultura livre foi positivo para possibilitar o projeto. Ou seja, disponibilizar os livros para download grátis foi um veículo que facilitou a divulgação e circulação dos livros, dos autores e, obviamente, do nome da editora. A própria Barbi Couto usa o termo “carta de apresentação” quando se refere ao site da editora e à possibilidade de fazer download grátis dos livros no mesmo. Ao citar um exemplo em que uma das campanhas de croudfunding que a editora realizou recebeu a colaboração de pessoas de nove países distintos, graças à difusão via web dos livros anteriores e da circulação do nome da editora entre ativistas da cultura livre e creative commons, deixa claro como a criação de redes foi importante para viabilizar economicamente o projeto da editora. Ao falar sobre como realiza a comercialização dos livros impressos em um mercado tradicional, afirma que o faz a partir de determinados critérios, selecionando apenas algumas livrarias que se interessam por comercializar livros-objeto e ilustrados (e provenientes de editoras pequenas). Também comercializam os livros em feiras. Mas o processo de vendas dos livros, segundo Barbi Couto, é mais lento e gradual, podendo gerar recursos para publicar outros livros, mas sem ser o que sustenta o projeto da editora. O projeto, segundo Barbi Couto, se amplia e revigora na construção de redes que vai gerando. Nesse ponto, a fala de Couto começou a me provocar uma suspeita de que a ideia de redes, a noção de colaboração e compartilhamento, nesse caso, estão apenas servindo à sustentação de um projeto editorial, mais do que pensando essas próprias ferramentas em si. Mas vejamos mais adiante.

Uma contribuição, que para mim gerou um contraponto interessante a essa fala de Couto, foi a de Rodrigo Savazoni , do Instituto Pró-comum (Santos, São Paulo). O projeto Laboratório Cidadão, realizado pelo Instituto Pró-Comum em Santos, é uma proposta de ação que pretende, a partir da cultura livre, estabelecer um “marco de possibilidades de interferência nas culturas políticas e econômicas que marcam as nossas cidades”, segundo palavras de Savazoni. Desde essa proposta de cultura livre voltada para a questão da participação cidadã, Savazoni reflexiona sobre a sustentabilidade pensando, primeiro, em que marcos teóricos essa palavra deve ser pensada. Propõe, portanto, pensar em sustentabilidade como “instrumento de afirmação de novas culturas econômicas”. Ao enfatizar, junto a ideia de sustentabilidade, as noções de economia colaborativa e economia solidária, Savazoni abre um importante espaço para o debate sobre como os termos do capitalismo financeiro e empresarial precisam ser problematizados no interior da cultura livre. Se sim, é verdade que os projetos de cultura livre para existir necessitam de algum tipo de financiamento, e Savazoni recorda as diversas fontes possíveis (seja via pública, via empresarial ou inciativa dos próprios usuários), também é importante considerar que se a ideia de economia e cultura não são refletidas e ressignificadas, facilmente a ideia de cultura livre pode se perder. Para Rodrigo Savazoni, o importante é pensar a cultura livre como instrumento de modificação da ideia de economia.

Outra pergunta que me chamou a atenção foi “como, desde a cultura livre, se pode gerar novos modos de gestão cultural”. Aqui, novamente, vi que a relação da cultura com o vocabulário empresarial, que como dissemos acima foi enfatizada especialmente a partir dos anos 1980, ainda é fortemente presente, mesmo quando se trata da reflexão sobre cultura livre.

Durante as reflexões sobre este tema, novamente achei que a fala de Barbi Couto acabou voltando-se para um lado mais prático da gestão de um projeto editorial que, para realizar-se, necessita de apoio coletivo e a ideia de colaboração que emerge aqui é a de: é necessário um apoio coletivo para a realização de um projeto cultural o qual, ao ser produzido, é disponibilizado coletivamente para todas e todos que contribuíram. É uma ideia interessante desde o ponto de vista da viabilização de projetos culturais sem a obrigação de participação em um mercado desigual e extremamente competitivo, por um lado, e sem o financiamento estatal, por outro. Mas sinto na fala de Barbi Couto que sua noção de colaboração e compartilhamento, centrada na produção e no acesso ao produto cultural e na visibilidade dos autores e da editora, torna possível um processo de posterior captura por um mercado editorial. Porque, em sua fala, ela deixa transparecer uma noção de rede e de comunidade muito restrita, baseada naqueles que colaboram para a criação de um livro, aqueles que o compartilham e/ou que se interessam pelo projeto e querem colaborar.

Claro que as comunidades não necessitam ser necessariamente amplas e universais e eu acho que um ponto importante destacado pela cultura livre é a possibilidade de formação de pequenas comunidades que passem a ter a possibilidade de existir e compartilhar cultura e informação fora de circuitos oficiais. Mas o que me causa incômodo na reflexão de Couto é a falta de ênfase nas questões mais de fundo dessa relação colaborativa e aberta em sua fala, deixando a sensação de uma compreensão de colaboração que se limita à viabilidade de um projeto que, de outra maneira, seria inviável. Ou seja, sua fala me deixou com a sensação de que o projeto, ao não realizar uma crítica mais profunda ao mercado editoral, seus sistemas de circulação e comercialização, apenas corre à margem deste, podendo passar a participar do mesmo caso tenha a possibilidade. Pensar sobre redes e criação de comunidade é algo que, a meu ver, deveria ser um fim em si mesmo não uma via para conquistar algum outro objetivo e digo isso sem querer fazer julgamento moral do projeto Ediciones de La Terraza. Está bem que alguém necessite viabilizar um projeto que é interessante sem ter que recorrer às mesmas vias de financiamento de sempre, podendo fazê-lo desde uma comunidade de pessoas que acreditam nele o suportam. Porém, creio que o fato de usar licenças creative commons, apesar de interessante e contra-sistêmico, nem sempre significa pretender construir novas comunidades ou propor modos de existir e fruir diferentes dos estabelecidos. Podem estar apenas viabilizando-se de formas alternativas (e colaborando para o que os palestrantes na mesa chamaram de capitalismo 2.0). Creative commons como estratégia de marketing é uma possibilidade a se considerar dentro do que se chama cultura livre. É bom ficar atento.

Nesse aspecto, Mixidie, quando deixa em evidência sua sensação de incerteza sobre o que significa gestionar um projeto, me deixa a impressão de estar entendendo a cultura livre de maneira mais ampla que apenas um projeto cultural aberto ao compartilhamento. Em sua fala, deixa clara uma noção de comunidade que, a meu ver, se pode colocar em contraste à anterior, no sentido de que pensa a comunidade não só como um grupo de pessoas que pode apoiar (ou se apropriar ou até compartilhar) um projeto.

Na fala de Mixidie, parece que a própria noção de coletividade está posta em questão, assim como a condição de trabalhadores da cultura dele e de seus companheiros organizadores dos festivais. Esse lugar indecidível, para usar termos derridianos, em que ele coloca sua condição de trabalhador da cultura - uma condição precária e pouco definida que não o garante sequer a sobrevivência -, a necessidade de pensar as contradições entre necessitar defender uma sobrevivência mínima e, também, defender a total abertura dos projetos que produz, evidencia, para mim, o real desconforto que a cultura livre e sua ideologia de abertura, acessibilidade, colaboração, horizontalidade, etc., vivenciam no seio da estrutura ideológica neoliberal. Pensar nesses termos significa pensar mais profundamente nas estruturas culturais e ideológicas em que se está produzindo a cultura livre, independente das tecnologias que utiliza e meios que ocupa para se distribuir. Não estar confortável e demorar muito para conseguir se estabelecer e produzir algo, segundo Mixidie, significa que a possibilidade de captura pelo mesmo sistema capitalista de que se pretende escapar pode estar mais improvável. Sua defesa de gestionar a contradição de ter que participar dessa estrutura neoliberal e, ao mesmo tempo, enfrentá-la e contradizê-la parece vir junto com o desconforto de não encontrar respostas para como se soluciona essas contradições. E essa demonstração de incômodo e desconforto é bastante valiosa, no meu entender, para compreender projetos que verdadeiramente estão buscando uma outra forma de pensar economia e sua relação com a cultura, ou novas culturas econômicas, novas economias, etc.


Nesse ponto, o debate tomou um rumo interessante para começar a pensar a institucionalidade atual e possibilidades institucionais novas, ou novas imaginações institucionais. A partir da provocação de um dos participantes sobre a questão da autonomia e a relação da política anarquista com a cultura livre, o debate começa a girar em torno de como se manter autônomo frente às atuais instituições modernas que produzem e reproduzem a ideologia neoliberal. Ou então, de que maneira construir novas institucionalidades que permitam a possibilidade de experimentar a cultura livre de maneira mais ampla. Nesse ponto da discussão, Rodrigo Savazoni se refere ao tropicalismo e à antropofagia - manifestos culturais que embasaram os modernismos e vanguardas artísticas do Brasil -, para se referir a estratégias de entrar e sair das estruturas. Segundo ele, esse tipo de procedimento se referiria a um processo de estabelecer conexões com distintos pontos de forma a caminhar a um ponto democrático de relação entre as instituições. Excetuando que talvez a noção de antropofagia não esteja sendo empregada tão adequadamente - ou que esteja sendo estendida de uma noção de produção criativa que se utiliza do canibalismo do outro para incluir uma noção de democracia -, o que Savazoni propõe, me parece, é pensar em institucionalidades futuras, uma criação institucional baseada em redes e interconexão e em uma possível nova lógica de construção mais horizontal e aberta. Levando em consideração o atual contexto brasileiro e a flagrante falência institucional que vivenciamos, me parece lúcida a consideração, mesmo que esta proposta esteja dada em termos gerais, sem pouca consideração efetiva de como se construiriam essas novas instituições.

De uma maneira geral, o debate provocado nesta primeira mesa foi interessante para demonstrar os ainda muitos desafios da cultura livre. Pensar os projetos e sua realização, no interior da cultura econômica neoliberal, propõe uma série de questionamentos que se referem desde “qual é o limite do pagamento justo e do lucro?” até questões que se relacionam com questionar "o que é realmente um coletivo?”, e, como, de fato,” realizar propostas horizontais e comunitárias?”. A necessidade de financiamento para os projetos esbarram as vezes em questões éticas sobre quem são os financiadores e quais são suas intenções em relação a estes. A possibilidade de captura dos projetos é algo que paira como uma sombra e o desafio é lidar com ela, discutir e elaborar criticamente cada projeto e proposta constantemente. O caminho para uma nova institucionalidade é largo e difícil de caminhar. Não será fácil sair da instituição econômica neoliberal e isso se torna aparente quando a cultura livre usa os mesmos termos dessa matriz ideológica, mesmo que de maneira ressignificada. Hackear esse sistema desde dentro, como muitos da cultura livre gostam de afirmar, é um caminho – e um bastante importante. Mas o desafio posto é pensar um para além, um futuro: o que fazer para além dessa matriz neoliberal? Como criar novas instituições? Como pensar novas economias e culturas? O incômodo parece estar longe de resolver-se.


Para assistir à conferência, clica no canal do Ártica no youtube: https://goo.gl/iO4kFk


quarta-feira, 14 de setembro de 2016

MESA 1: Gestión Cultural para la Promoción de Cultura Libre

Un proyecto de promoción de cultura audiovisual libre: Festival BccN

El 1º Congreso On Line de Gestión Cultural ya empezó. Desde ayer (13.09) es posible acceder a las cinco ponencias participantes de la mesa inaugural del evento en el sítio de Ártica – Centro Cultural On Line (pincha aquí: http://goo.gl/RnpaBZ ). El próximo jueves (15.09), se realiza la video-conferencia de la mesa, momento en que los autores de las ponencias seleccionadas hablarán en vivo y podrán ser interpelados por el público vía on line. La conferencia será transmitida en vivo, desde las 16 hrs. (hora de Brasília y Santiago), por el canal de Ártica en youtube (http://goo.gl/4SSM5w).

Las ponencias elegidas para participar de esta primera mesa relatan experiencias de proyectos de gestión y promoción de cultura libre en ciudades como São Paulo (Brasil), Córdoba (Argentina), Patagonia (Argentina) y Barcelona (España). Los proyectos son diversos y proponen desde la creación de tecnologías de mapeo colaborativo con el fin de promocionar redes culturales, hasta la creación de una editorial colaborativa y la promoción de festivales de cine para difundir material audioviosual realizado bajo parámetros de cultura libre.

Ayer, en el primer post sobre esta mesa, comenté brevemente sobre el proyecto Ediciones de La Terraza, de Córdoba, Argentina. La característica que llamó mi atención en este proyecto es su preocupación por la colaboración y la amplitud del acceso a la cultura junto a una preocupación estética con el objeto-libro que producen. Enfatizar el carácter objetual y estético del libro no les impide pensar en una propuesta creative commons, reproducible y accesible, yendo en contra a las normas del mercado editorial. Para ver más sobre este artículo (que está en portugués), pincha aquí: https://goo.gl/9XJxpZ

En este post, me gustaría poner el acento en otro proyecto, el de la Asociación Panorama 180: la realización del festival de Cine y Cultura Libre de Barcelona (BccN). El festival, de carácter creative commons, lleva siete años realizándose y logró crear una red abierta donde más de 30 festivales de las mismas características son realizados. En las palabras de Andreu Meixide, miembro de Panorama 180: “En los últimos años un buen grupo de gente hemos desarrollado diferentes proyectos como BccN, Barcelona Creative Commons Film Festival, el que en 2010 fue el primer festival del mundo de estas características y que comenzó a propiciar a partir del 2012 aplicándose a él mismo una licencia abierta que se replicara en diferentes pueblos y ciudades del planeta. De éste modo descentralizado y basado en la autogestión de cada festival se ha ido creando CCWorld REd de Comunes Audiovisuales, una red abierta con más de 30 certámenes de audiovisual y cultura libre sobre todo en países de habla hispana”.

Lo interesante del festival es su realización por varios espacios de la ciudad, incluyendo diversos centros culturales, hasta el mismo Museo de Arte Contemporáneo de Barcelona (MACBA). Una propuesta de inmersión cultural en sus cuatro días de duración. La programación incluye la exhibición de películas con licencia creative commons y también workshops, debates, mesas redondas y charlas sobre temas como - tomando el ejemplo de la edición del 2016 - derechos de autor, la relación entre el Estado y los inmigrantes, la aplicación de códigos abiertos en el audiovisual, la medición del retorno social del audiovisual, entre otros temas. También está la realización de conciertos durante el festival. El modelo variado y amplio de actividades es de código abierto, o sea, aquellos que lo crearon no detienen los derechos de este modelo de festival que puede (y se supone que debe) ser replicado por otros grupos y personas, en tanto respenten la premisa básica de la accesibilidad y de la apertura del mismo.

En la ponencia del grupo queda en evidencia una sensación de constante desafio enfrentado por este modelo de festival que no objetiva el lucro, sino más bien el acceso a la información y la cultura. Una de las dificultades que se deja leer en el texto es la de la consideración de los contextos locales en el medio de una cultura que se cree global. El modelo de festival, pensado y gestionado en Barcelona, ya ocurre en 30 otros lugares, y recién empezó a realizarse en Uruguay también. Si bien que cuestiones como los debates sobre la apertura de la internet y su neutralidad, las crisis de inmigración, el derecho de autor, entre otras, son más bien ampliamente conocidas, hay otras que son de carácter más local que también necesitan la atención y discusión. Crear un modelo abierto pasa, necesariamente, por tener claro que este será modificado y cambiado desde las necesidades e intereses de los que se apropian de él. Si no, sería más un producto global eurocentrado, capitalista y colonialista, para el cual las diferencias culturales son una incomodidad o algo a ser ignorado. Pero la cuestión está en cómo cada festival realiza esas adaptaciones locales y logran gestionarse sin perder de vista la idea base de apertura y acceso amplio. Parece que este es un desafío también para el grupo que organiza el festival y quizás durante la conferencia esta cuestión pueda ser mejor discutida por los representantes de Panorama 180.

Mañana, durante la conferencia, intentaré esclarecer como Panorama 180 plantea esta cuestión de las diversas realizaciones locales del festival BccN, además de otras relacionadas al asunto de la participación del público y del proceso de ampliación de esta red creada. También será importante intentar investigar cómo los artistas y otros actores culturales participan de esta actividad y cómo el mismo grupo logra generar este trabajo (con qué recursos y con qué colaboraciones). Sigan el Reflejo para más informaciones. #GCultural2016

Para conocer más sobre el festival, pincha aquí: http://www.bccn.cc/

Y aquí para conocer al Panorama 180: http://www.panorama180.org/

terça-feira, 13 de setembro de 2016

MESA 1: Gestión Cultural para la Producción de Cultura Libre

Um projeto editorial livre: Ediciones de la Terraza

A mesa que inaugura o 1º Congreso On Line de Gestión Cultural discute a temática da gestão cultural para a produção de cultura livre. A partir de hoje (13.09) até o fim dessa semana, é possível acompanhar no site do Ártica – Centro Cultural On Line (http://goo.gl/RnpaBZ) as cinco palestras selecionadas e as perguntas lançadas para gerar o debate. Na próxima quinta (15.09), será realizada a videoconferência da mesa, onde as discussões trazidas pelos palestrantes serão ampliadas através da participação on line do público. A conferência será transmitida ao vivo, a partir das 16h (horário de Brasília e Santiago), no canal do Ártica no youtube (http://goo.gl/4SSM5w)

Foram escolhidos cinco projetos de promoção de cultura livre provenientes de São Paulo (Brasil), Córdoba (Argentina), Patagônia (Argentina) e Barcelona (Espanha). A ideia desta mesa é debater, através destes cinco exemplos, como se realiza um modelo de gestão cultural baseada nos critérios de colaboração, compartilhamento, difusão e acessibilidade ampla – ideias que se contrapõem a um modelo de gestão baseado na propriedade, no controle da difusão, na busca pela lucratividade que se associa ao controle de reprodução da informação.

Definindo a cultura livre como “um tipo de produção cultural que garante a livre disponibilidade, acesso, utilização e reutilização dos materiais e ferramentas produzidos”, a mesa propõe discutir cada prática que deriva desse pressuposto inicial observando os exemplos de cada um dos projetos selecionados. Estas práticas, em linhas gerais, se relacionam a modos de agir que tornam viável a produção cultural não voltada para fins lucrativos, baseada na ampliação e difusão do conhecimento, na formação de redes e na relação comunitária. O foco da discussão, portanto, se dará sobre como esses projetos realizam sua gestão a fim de tornar-se viáveis e cumprirem com os objetivos de fomentar uma produção cultural e tecnológica aberta e acessível.

Um destes projetos que, até o momento, me chamou mais a atenção é o Ediciones de La Terraza uma editora de Córdoba, Argentina. Surgida em 2012, a editora tem como objetivo a construção coletiva de suas publicações e a disponibilidade delas o mais amplamente possível. Propõem uma relação horizontal seja com os autores dos livros, seja com o público, constantemente estimulado a colaborar e participar da produção editorial (tanto através de financiamentos coletivos, como opinando nas escolhas editoriais). Obviamente, utilizam licenças creative commons e estimulam o acesso amplo às publicações.

O que me chamou a atenção nesse caso é uma constante afirmação do objeto-livro pelo grupo. Não se trata apenas de publicar e difundir, é um projeto de produzir livros-objeto, livros que sejam atraentes e desejáveis. Esse apelo para o livro na sua dimensão estética e a junção disso a uma reivindicação de liberdade de circulação são fatores bastante interessantes do projeto desta editora. Segundo Bárbara Couto, uma das fundadoras da editora: "Em Ediciones de la Terraza editamos livros daqueles que te chamam desde a estante. Livros que começas a desfrutar desde o momento em que começaste a folhear. Livros que entretêm desde a leitura até o seu aspecto visual. Destes que queres que todos vejam que tens para que queiram ter também. A leitura começa com a curiosidade e o desejo.”

Aparentemente se produz um paradoxo entre o apelo de ampliação do acesso, virtualizando os livros para disponibilizá-los on line, e essa reivindicação do objeto-livro quase fetichizado. É claro que o livro on line jamais terá esse caráter táctil e visual que o grupo enfatiza em suas publicações. Mas é nesse paradoxo que reside uma importante característica dessa editora: a produção de um objeto de fetiche, que provoca desejo, sem estar associado a uma noção de comercialização. O fato de enfatizarem o caráter estético e objetual dos livros (dão sempre prioridade aos livros ilustrados e enfatizam o cuidado com a encadernação) poderia facilmente relacioná-los a editoras comerciais que produzem objetos que rapidamente se tornam desejados e valorizados em um mercado editorial. Mas a ênfase, por outro lado, no uso das licenças creative commons, na busca pelo apoio em financiamentos coletivos e o desejo de devolver essa colaboração em rede disponibilizando o conteúdo do livro é algo que tira essa editora desse sistema de regulação da informação e do controle via comercialização. Essa experiência e seus resultados, quando melhores observados, podem contribuir para o grande debate gerado entre produção artística e uma relação com o mercado, sem com isso diminuir a importância da constituição estética e objetual da arte.

Porém, os editores admitem que não é tão fácil trabalhar com as licenças creative commons junto aos autores. Segundo Couto, a proposta de abertura da editora as vezes esbarra nos desejos e crenças individuais dos autores, provocando negociações e adaptações. Mas as negociações se dão em um nível de escolher qual licença commons o autor prefere trabalhar, estando sempre a possibilidade de ter que escolher alguma delas.

Aparentemente, Ediciones de La Terraza, em seus quatro anos, tem conseguido manter seu projeto editorial colaborativo em funcionamento. Segundo relato de Couto, os processos de compartilhamento vão gerando novas redes e propostas para a editora, gerando um movimento de retroalimentação. Um movimento de ampliação e difusão que vai atraindo novos agentes interessados em participar, mesmo sem a pretensão de “crescer”, “conquistar metas”, “atrair novos parceiros”. As palavras mais usadas nesse projeto, que se contrapõe a estas últimas - mais comuns no vocabulário comercial - são: parcerias, compartilhamento, colaboração e coletividade. A editora se pretende um projeto de produção estética e artística cujo único fim é ser fruída.

Na próxima quinta (15.09) iremos acompanhar a presença de Ediciones de La Terraza na videoconferência e tentar, durante o debate, descobrir em que condições a editora tem sobrevivido e se reproduzido, de que maneira os livros impressos são comercializados e/ou compartilhados e qual o verdadeiro alcance dessa iniciativa dentro de um processo de produção de redes. Sigam acompanhando o Blog Reflejo para saber mais. #GCultural2016


Para conhecer mais sobre Ediciones de La Terraza, clica aqui: http://edicioneslaterraza.com.ar/

segunda-feira, 12 de setembro de 2016


El Blog Reflejo está participando en la cobertura colaborativa del 1º Congreso de Gestión Cultural. El congreso fue organizado por colectivos de cultura digital y libre, además de centros de cultura on line. Estos son: Aforo Gestión CulturalÁrtica – Centro Cultural Online,Baixa CulturaComandante TomComunicación Abierta Gestión Cultural UY. Desde nuestro blog, iremos transmitir comentários críticos de las ponencias realizadas y difundir links para asistir a las transmisiones on line de las mesas. La programación empeza mañana (13.09) con la mesa sobre cultura libre. Las notícias y comentários serán difundidos en portugués y castellano. Estén atentos. Y Sigan el Reflejo. #GCultural2016






El Blog Reflejo está participando en la cobertura colaborativa del 1º Congreso de Gestión Cultural. El congreso fue organizado por colectivos de cultura digital y libre, además de centros de cultura on line. Estos son: Aforo Gestión CulturalÁrtica – Centro Cultural Online,Baixa CulturaComandante TomComunicación Abierta Gestión Cultural UY. Desde nuestro blog, iremos transmitir comentários críticos de las ponencias realizadas y difundir links para asistir a las transmisiones on line de las mesas. La programación empeza mañana (13.09) con la mesa sobre cultura libre. Las notícias y comentários serán difundidos en portugués y castellano. Estén atentos. Y Sigan el Reflejo. #GCultural2016





sexta-feira, 27 de maio de 2016

Vazio institucional: grandes eventos, museus espetáculo e o desmonte das instituições públicas

Neoliberalismo. Essa palavra, de tão dita repetidas vezes, já se tornou uma espécie de jargão o qual quase ninguém se pergunta mais sobre o seu sentido. O que é neoliberalismo? Uma ideologia econômica. Mas que ideologia econômica é essa? Uma ideologia econômica que, em termos gerais, defende a ampliação das forças do mercado e do patrimônio privado em detrimento da esfera do Estado, diminuída e restringida ao papel de facilitador dos negócios e realizador do controle social, através da polícia. Esse encolhimento da esfera estatal resulta na diminuição ou quase ausência de políticas de bem-estar social e investimentos em amplos setores da vida social, incluindo a cultura.

Privatizar, o lema principal do neoliberalismo, se tornou uma ação com graves consequências para vários países, especialmente nós aqui na América Latina. Setores estratégicos como de produção energética, telefonia e até gestão das águas, foram vendidos para o capital estrangeiro. Enquanto isso, setores como o de cultura passaram a ser dominados por um pensamento empresarial onde o marketing ganha destaque. Em vários países, grande parte das políticas culturais foi reduzida à promoção de fundos de financiamento e acordos com o empresariado para que este financie a cultura em troca de abono dos impostos. Os artistas e demais agentes da cultura, nesse cenário, foram obrigados a especializar-se em áreas como administração, gestão de projetos e contabilidade, a fim de sobreviver a essa nova lógica da necessidade de captar recursos para produzir.

E num cenário de políticas estatais para a cultura reduzidas, priorização do financiamento privado, as instituições também sofrem impactos bastante importantes. O principal deles é diminuição do envio de verbas para manutenção, falta de política para constituição de acervos, dificuldade de estabelecimento de programações de exposições consistentes e constantes, diminuição do protagonismo das instituições no fomento da produção artística (pouca ou nenhuma realização de cursos e seminários, pouca produção de publicações, não-estruturação de setores de pesquisa e não realização de programas para artistas). Para sobreviver, muitas destas instituições são obrigadas a concorrer por patrocínios, muitas vezes participando dos mesmos editais que os artistas, gerando uma competência desigual, por um lado, e dificultando a manutenção de políticas regulares institucionais, visto que estas se vêm sujeitas às instabilidades dos editais, por outro.

Essa descrição mais ou menos genérica da situação institucional frente a falta de políticas estatais para a cultura dá uma sensação de familiaridade imediata. Causa a impressão de se estar descrevendo a situação real de vários museus pelo mundo. E essa situação de descaso leva a várias consequências no interior dos contextos culturais e sociais.

Junto com isso, a visão da cultura como um “serviço”, inserida por esse pensamento empresarial e mercadológico neoliberal, é relacionado, por vários pesquisadores, ao surgimento dos chamados museus pós-modernos, ou museus-espetáculo. São instituições constituídas, geralmente, com projetos arquitetônicos arrebatadores e situadas em lugares que estão sendo valorizados economicamente. O objetivo dessas instituições, quase sempre, é o de realizar exposições que atraiam o maior número de público possível. As noções de lucro, valorização e commoditie podem facilmente ser aplicadas para definir estas instituições que se tornam, elas mesmas, commodities para o mercado imobiliário e turístico do lugar onde se situam.

No Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro, uma instituição com essas características foi recentemente inaugurada, chamada Museu do Amanhã1. O fato, em si mesmo, que existam instituições voltadas para o entretenimento e o turismo não é o grave e o crítico da questão. O fato é que milhões de reais da esfera governamental da cidade foram usados na construção de um museu - que tem como sócio um dos grandes conglomerados de televisão do país, a Rede Globo, além do Banco Satander - enquanto outras instituições públicas perecem, a exemplo da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, ameaçada de fechar por falta de recursos.

A arquitetura deste museu e o lugar onde se situa, na Praça Mauá, se conectam com a recente política realizada na cidade do Rio de Janeiro, a da realização de grandes obras para tornar a cidade turisticamente atrativa para as Olimpíadas. Aliada a essa política, está a ação de higiene social, através do braço armado da polícia, que tem sido uma das principais formas de ordenar o espaço urbano nessa cidade nos últimos anos, além de indicar que tipo de política para a cultura se realiza. Aqui, muito claramente, vemos operar a lógica da espetacularização da cultura com o objetivo de gerar renda e valor.

Outro fator que atinge diretamente o setor cultural são as crises econômicas, aliadas à precariedade da estrutura estatal. Recentemente, foi anunciado, em São Paulo, o fechamento do Paço das Artes. Criado em março de 1970, a instituição chega às vésperas do seu aniversário de 46 anos com a incerteza de sua continuidade. A última exposição, do alemão Harun Farocki, está em cartaz até março. De aí em diante, é incerto o futuro da instituição que nunca teve uma sede própria em sua história. Funcionando atualmente em um prédio situado no campus da Universidade de São Paulo, terá que sair do atual endereço porque o Instituto Butantã, a quem o edifício pertence, está pedindo-o de volta. E junto com a perda do edifício, a atual diretora da instituição, Priscila Arantes, prevê um corte na verba de 15 milhões anuais, dividida com o Museu da Imagem e do Som. A esperança é a de que a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo entregue um edifício para que o Paço das Artes construa sua própria sede e possa continuar funcionando e realizando ações de fomento e exibição da arte contemporânea no país. Dentre as várias atividades realizadas pelo Paço, estão programas importantes e reconhecidos em todo o país como o edital Temporada de Projetos e o Programa de Residência Paço das Artes. Além disso, desde 2011, o Paço abriga a PARTE, umas das primeiras feiras exclusivas para a arte contemporânea.

Outra situação parecida, ou talvez mais grave, ocorre em Recife, Nordeste do Brasil. No interior de um contexto mais amplo de crise política e econômica, que toma conta de todo o país, a situação cultural da cidade se tornou mais crítica após uma sequência de duas administrações municipais que desmontaram toda a pequena estrutura que se havia conseguido construir. Seguindo a mesma lógica de política urbana e cultural voltada para a promoção de um turismo de marketing, e baseado em uma relação espúria entre instituições privadas e a esfera governamental, foram criadas duas novas instituições, o Paço do Frevo e Cais do Sertão. Situadas em uma área histórica da cidade (o Paço do Frevo) e numa antiga zona portuária da cidade (Cais do Sertão) - a qual foi completamente descaracterizada para dar lugar a empreendimentos turísticos - foram construídas em sistema de Parceria Público-Privada, onde o Estado financiou grande parte da obra e uma empresa privada ficou a cargo da administração da instituição.

O financiamento dessas duas instituições levou o Estado a alegar falta de verbas para a manutenção de outras ações culturais, como o pagamento dos artistas que participaram de ações realizadas pela Fundação de Cultura do Estado (Fundarpe), além de custar também, no nível municipal, o completo abandono de instituições que foram fundamentais na estruturação da arte contemporânea na cidade, a exemplo do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM). Sem contar a destruição do Teatro do Parque, um dos mais tradicionais da cidade, que está em ruínas e a prefeitura se recusa a realizar sua reforma.

Mas o que mais indignou a cena cultural da cidade foi o anúncio de fechamento das duas instituições recém-construídas. O Paço do Frevo já demitiu funcionários e deixou vários em aviso-prévio. O Cais do Sertão também anunciou o fechamento, provocando a revolta da classe artística e da população que lutou, desde o início, contra a revitalização da qual o projeto do museu fazia parte, que descaracterizou todo o patrimônio portuário da cidade. A corrupção evidente da relação entre o governo e o setor privado chegou no limite do desmonte completo, momento em que as instituições se tornam empresas que são fechadas ao não proporcionar o lucro esperado pelos seus donos. Instituições que foram construídas com dinheiro público, que modificaram um pedaço da cidade historicamente importante e que, no final, não constituíram nenhum benefício além o de promover lucros ao setor privado. E em pouco menos de três anos de funcionamento já são descartadas e fechadas, demonstrando um completo descaso com o setor cultural pelos governos do estado de Pernambuco e da cidade do Recife, além de um evidente entreguismo do patrimônio público à irresponsabilidade administrativa do setor privado.

Importante dizer que a única instituição que funciona de maneira mais ou menos regular é o Museu do Estado que foi privatizado. Ou seja, a única instituição estatal que Pernambuco possuía está agora sob os cuidados do Banco Satander, até quando este deseje.

Com uma produção bastante prolífica e atuante, seja nas artes visuais, como na música e no teatro, Recife quase nunca, ou muito poucas vezes em sua história, contou com uma malha institucional que desse suporte e fomentasse a mesma. Iniciativas pontuais, as vezes privadas, e sem continuidade, marcam a história dos grandes momentos da produção artística. Aliás, a história da arte visual recifense é marcada pela articulação e ação em coletivos de artistas. Foi graças a vários momentos de produção em grupo que a arte pernambucana se manteve potente e ativa, no seio de uma completa carência institucional que é histórica.

E no Brasil, em geral, foram poucos os momentos em que o Estado promoveu políticas culturais. Uma primeira tentativa de estruturação estatal aconteceu no período do governo do presidente Getúlio Vargas conhecido como Estado Novo, entre 1937 e 1945. Nesse momento, participaram do governo intelectuais importantes como Mário de Andrade e foram criados órgãos até hoje fundamentais como o Serviço do Patrimônio Artístico (SPHAN) hoje tornado instituto (IPHAN). Após a época da ditadura do Estado Novo, foi no período da ditadura militar que a área da política cultural brasileira viveu um novo momento de expansão, quando novos órgãos como a Fundação Nacional das Artes (Funarte) foram criados. É importante ressaltar essa coincidência: quando o país viveu dois de seus maiores momentos de governos ditatoriais foi também quando teve maior atenção a área cultural. O aparente paradoxo se resolve quando compreendemos que a necessidade de integração nacional exigida pelo controle ditatorial, por um lado, e a necessidade de controle da produção cultural e intelectual, por outro, foram motivos que levaram à criação de inciativas estatais nessas áreas.

E, desde os anos 1980, quando a lei Sarney foi criada, o Estado, que nunca foi exatamente presente na formulação de políticas culturais e na sua estruturação, se ausentou ainda mais no Brasil. Essa lei, parecida a várias outras implantadas na América Latina, autoriza o financiamento de ações culturais através do patrocínio privado. Empresas são estimuladas a investir na cultura em troca de isenções fiscais dos governos. O que parece investimento privado é, na verdade, dinheiro público, visto que esses recursos deixam de tornar-se impostos que são, teoricamente, dinheiro dado por todos para ser compartilhado para todos. E, além de tudo isso, as inciativas culturais ficam sujeitas à lógica de marketing das empresas, o que promove a desigualdade da destinação desses investimentos, prejudicando a diversidade da produção artística.

Sem instituições fortes, estruturadas e funcionando bem, a produção artística fica à mercê desses investimentos privados e de ações coletivas ou particulares para continuar existindo. O desmonte institucional torna-se prejudicial até para o mercado de arte, visto que as galerias passam a cumprir o papel de instituições, fomentando a produção, a pesquisa e a difusão, o que prejudica sua atividade de expor, inserir o artista no mercado e vendê-lo. Além disso, são instituições fortes, que possuem políticas de acervo, que podem fazer o mercado girar também ao adquirir obras e exibir os artistas. Ou seja, até para a lógica de mercado, essa ideologia neoliberal do espetáculo e da efemeridade na área da cultura, levada ao extremo que estamos vivendo, torna-se prejudicial. É preciso uma mudança urgente nos parâmetros governamentais no tratamento da cultura e do patrimônio público. E a primeira coisa é o público, que somos nós, que somos todos, tomarmos consciência do nosso papel cidadão e começarmos a defender o público da sanha lucrativa sem limite de uma parte do privado.

1O Museu do Amanhã foi inaugurado no Rio de Janeiro no dia 19 de dezembro de 2015.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Relato del Seminario Internacional Futuros Progresivos y Resonancias Críticas de los 80

El Seminario Internacional Futuro Progresivos y Resonancias Críticas de los 80, que se celebró en el auditorio del Museo de la Solidaridad entre el 12 y el 13 de abril en Santiago, es una de las actividades relacionadas con la muestra Poner el Cuerpo, en exhibición en la misma institución. Ambos son reverberaciones de la investigación realizada por la Red Conceptualismos del Sur para la exposición Perder la Forma Humana: una imagen sísmica de los años ochenta en América Latina, que ocurrió en el Museo Reina Sofía de Madrid, entre octubre de 2012 y marzo 2013.

Además de la exposición, Perder la Forma Humana también realizó una serie de encuentros en los que se invitó a los artistas a presentar sus investigaciones y actividades, impulsando la creación de una red entre ellos. Las reuniones y la itinerancia de la muestra, que recorrió Lima y Buenos Aires, ocurrio hasta el 2014. Por lo tanto, Futuros Progresivos es un tipo de itinerancia no oficial que continúan, en Chile, los debates generados por esa exposición de arte conceptual que permitió la participación de personas de diversos países de América del Sur en su formación.

Día 1 (12.04)

Al igual que los encuentros realizados en Perder la Forma Humana, el seminario Futuros Progresivos también se organizó con el fin de evidenciar el habla de los artistas. Y la primera mesa tuvo la participación de Alberto Díaz, representante del grupo chileno Agrupación Jóvenes Plásticos (APJ), Antonio Kadima, miembro del Taller Sol, también de Chile y Alfredo Márquez, de la agrupación peruana Taller NN. La mesa se intituló Trazos Insurgentes: La Gráfica y destacó la experiencia de estos artistas con la producción de carteles y folletos.

Esta experiencia gráfica fue marcadamente importante a finales de los 70’ y el período de los años 80’. En parte, en Chile, debido a una herencia muralista, representada por las brigadas políticas que ocuparon las paredes en el momento de la campaña de Allende, junto con una estética política de izquierda que favoreció la serigrafía y el grabado como formatos (por su facilidad de producción, circulación y, se suponía, de recepción). Por otro lado, en Perú, se adoptó una visualidad Pop que contestó, por una parte, la estética tradicional de la izquierda y por el otro, denunció el terrorismo de Estado y el genocidio del pueblo peruano.

La primera agrupación presentada, la Agrupación de Plásticos Jóvenes (APJ), surgió en 1976 desde el Grupo Semilla, formado por estudiantes de la Facultad de Bellas Artes. Después de una exposición cerrada por la policía, cuando varios miembros fueron detenidos, el Semilla terminó. Sin embargo, varios de sus miembros volvieron a reunirse alrededor de la APJ, continuando las acciones para llevar a cabo actividades culturales en las universidades y espacios alternativos, como el Taller 666. A partir de ahí, comenzaron a ampliar las actividades para el medio ambiente urbano, actuando desde una comprensión de este como un espacio de intervención y soporte de creación. El paso hacia el espacio público intensificó el carácter activista del grupo. Desde ahí, la APJ empezó a articularse con estudiantes de artes gráficas para la producción de carteles y folletos, y a reunirse con grupos comunitarios y sindicatos, haciendo murales en estos lugares.

De acuerdo con el testimonio de Alberto Díaz, el primero en tomar la palabra, había en ese momento un clima muy fuerte de articulación colectiva. En las universidades, dice Díaz, comenzaron a circular libros sobre el arte conceptual y esta información condujo a la comprensión de cómo realizar actos artísticos en la ciudad que ayudaron a planear acciones del grupo. La APJ pasó a enfocar la intervención urbana y la acción de intervención en los conflictos sociales. Comenzaron a realizar varias acciones con carteles, produciendo materiales para las protestas, así como folletos en los que se les pidió a las personas intervenir rellenandolos. La APJ también produjo escenarios y murales móviles, participando en espectáculos de teatro y de acciones murales en la ciudad. El contenido de las acciones realizaba crítica a los actos de terrorismo de estado cometidos por la dictadura de Pinochet, en contra de la censura establecida y estimuló la conexión social.

Después de Díaz fue el turno de Antonio Kadima hablando sobre Taller Sol. Creado en 1977, el Taller Sol, así como APJ, también utilizó el recurso de la producción de carteles y folletos como medio de intervención urbana y política. En su informe, Kadima habló sobre el proceso de rearticulación cultural que se produjo en el período post-dictadura. En ese momento, varios intelectuales y artistas fueron asesinados o exiliados y fue necesario realizar nuevas redes y articulaciones entre los que se quedaron. Desde la organización en grupo, los artistas comenzaron a reorganizarse para formar nuevas redes de acción y resistencia a lo que Kadima recordó como el llamado "apagón cultural" de la dictadura. El Taller Sol fue uno de esos colectivos. Este grupo también llevó a cabo la investigación sobre el proceso creativo popular en el Chile post-dictadura, creando lo que es el Archivo de Memoria de la Resistencia, actualmente muy importante. El grupo también realizó acciones musicales, teatro y danza, además de investigar sobre estas manifestaciones. Aún en funcionamiento, el Taller Sol ahora tiene un importante archivo documental de la época, siendo un centro de investigación de las acciones artísticas de finales de los años 1970 y 1980 en Chile.

El tercer invitado de la mesa, el peruano Alfredo Márquez, miembro del grupo Taller NN, destacó la acción gráfica y la acción de guerrilla de este grupo en el período de la década de 1980. Por un lado, estas acciones eran similares a los experimentos llevados a cabo en Chile, pero por otro se distingue por el contenido estético de los carteles producidos. Utilizando la técnica de la fotocopia y serigrafía, también usado por grupos APJ y Taller Sol, la diferencia en la experiencia peruana está en una visualidad marcadamente pop que sus carteles presentan. El Taller NN se apropió de carteles y fotos y imprimió nuevas frases sobre ellos (técnica también utilizada por APJ), pero también utilizó imágenes populares para intervenir en ellas. Un ejemplo es la imagen icónica de Mao Tse Tung con los labios pintados y coloreados con colores fuertes como el rosa y amarillo. Hay en esta serigrafía una fuerte semejanza con las imágenes seriales de Andy Warhol, como por ejemplo su Marilyn Monroe.

Sin embargo, según Márquez, la relación con esta tradición Pop no era directa. Para él, más que el arte pop, fueron las carátulas de los álbumes de rock que marcaron la visualidad de su generación. Se reconoce una influencia del arte pop, pero él afirma que esto no era una referencia intelectual para el grupo. Fue más una referencia estética más amplia, presente en el mundo de los medios de comunicación y el arte y la cultura relacionada con el punk que el grupo tenía como referencia. Esto se debe a que, en medio de la guerra entre el Estado peruano, representado por la figura de Alberto Fujimori y el grupo guerrillero Sendero Luminoso (grupo maoísta), la influencia del punk y sus símbolos del anarquismo y la subversión son activados por grupos de la resistencia en ese momento. Y estos grupos, llamados por la izquierda partidaria peruana de "marginales regresivos", se destacaron por una resistencia que puso en tela de juicio tanto las narrativas de izquierda en boga en la época como los discursos pro-gobierno.

En los carteles producidos por Taller NN, se destacan las intervenciones sobre imágenes difundidas por los medios de comunicación de cadáveres apilados (que podrían confundirse con las de los campos de concentración de Auschwitz), pintadas con colores fuertes y vibrantes, destacando la banalidad de estas muertes en piezas que parecen casi de publicidad. Estos cuerpos sin identificación, anónimos fueron clasificados por las iniciales NN. Este acrónimo fue apropiado por el grupo y pasó a nombrarlo. Otra apropiación que el grupo realizó fue la del número 424242, que aparece en varios de los carteles y folletos producidos. Este fue un teléfono creado por el gobierno para que se hicieran acusaciones de posibles miembros del grupo terrorista Sendero Luminoso. Las quejas anónimas fueron responsables de la desaparición de miles de personas.

La guerra civil peruana duró 20 años, entre 1980 y 2000, dejando un saldo de casi veinte mil desaparecidos, miles de exiliados y varias otras muertes confirmadas. Y el relato de Márquez de este contexto fue especialmente importante dada la actual posibilidad de victoria de Keiko Fujimori para la presidencia de Perú. Keiko es la hija de Alberto Fujimori, quien actualmente cumple una condena por asesinato premeditado, secuestro, lesiones graves, así como acusaciones de corrupción durante su mandato.

La segunda mesa de la noche contó con la participación de investigadores de la Red Conceptualismos del Sur, que hablaron sobre la experiencia de la construcción de la exposición Perder la Forma Humana. De la mesa participaron la argentina Ana Longoni, miembro articulador de la Red, el brasileño André Mesquita, la chilena arraigada en Argentina Fernanda Carvajal y la curadora Isabel García, también de Chile. Además, participó el artista chileno Felipe Rivas, miembro del Colectivo Universitario de Disidencia Sexual (CUDS).

Inaugurando la mesa, Ana Longoni, miembro más antiguo de la Red de Conceptualismos del Sur y uno de sus articuladores, destacó que la Red nació de una necesidad de pensar en las prácticas conceptuales desde el sur y en las formas de trabajo en red y la colaboración. La Red también pretendia realizar la recuperación de experiencias clave producidas a partir de la década de 1970 y que estaban invisibles. Este trabajo de investigación y el intercambio realizado por la red llevó a la invitación para realizar la exposición Perder La Forma Humana que, según Longoni, fue una iniciativa del Museo Reina Sofía. Inicialmente, el Reina Sofía pretendió destacar las acciones llevadas a cabo en la década de 1970, pero, según Longoni, la red decidió investigar la década de 1980, teniendo en cuenta que las discusiones sobre el período anterior se habían llevado a cabo en gran número. Por otra parte, debido a que la narrativa histórica oficial de ese período se basa en la idea de retorno a la pintura, diversas acciones de guerrilla urbana, intervención social, el cuestionamiento de género, las prácticas artísticas subterráneas, las relaciones con la cultura punk, entre otros, terminaron desaparecidos de este recuento histórico. Hubo un interés de la Red por poner en evidencia una metáfora artística del cuerpo de este período, evidenciando las relaciones entre el cuerpo y los procesos de violencia, dice Longoni. Por lo tanto, el eje de investigación para la producción de Perder la Forma Humana fueron: activismo artístico, la desobediencia sexual, travestimos, espacios undergrounds, redes, pAnk (la letra A mayúscula es para dar visibilidad a una experiencia de América Latina del punk). A partir de estos ejes, el grupo de investigadores estableció además relaciones con los conceptos de confrontación, contaminación y contagio con el fin de no clasificar demasiado los experimentos.

El momento interesante del relato de Longoni sobre la muestra es en el que revela que el 90% del material participante de Perder la Forma Humana nunca antes había estado en un espacio de exposición. Para ella, este hecho plantea la cuestión de la presencia de prácticas marginales en el museo. Esto lleva a pensar acerca de cómo el museo se puede ver, según ella, como un espacio de interpelaciones, o sea como un espacio público a ocupar, además de un espacio de legitimación artística. Longoni también pone de relieve las tensiones entre la expografía "cubo blanco" del espacio del museo y la calidad precaria del material exhibido. Y otra tensión revelada por el relato de Longoni fue el hecho de que en 2014, al final del la itinerancia de la exposición en Buenos Aires, la feria Argentina de arte contemporáneo, Arte BA, ya estaba exhibiendo este material. Para Longoni, esta situación plantea la cuestión de la velocidad de apropiación que presenta el mercado y la responsabilidad de los investigadores en este proceso.

La socióloga Fernanda Carvajal, en su discurso, también expone el roce que se produce en la relación entre el archivo y el mercado planteada por Longoni. Carvajal pone de relieve la necesidad de pensar en cómo los procesos de investigación se refieren a una dimensión de la valoración de mercado. Y para Isabel García, esta cuestión implica preguntarse "¿Cómo los archivos comienzan a socializarse?". Esta respuesta, para García, tiene que pasar por la relación de los archivos con la memoria y una discusión de lo que es la obra y lo que es el documento. La compra de los archivos expuestos en Perder la Forma Humana por los coleccionistas e instituciones pone en relieve, según la curadora, la cuestión de cuándo se pierde la especificidad de los archivos.

Los problemas revelados por las investigadoras de la red en su discurso pone de relieve un debate que circula en el campo del arte y para el cual trato de aportar con mi tesis sobre los agenciamentos artísticos. En esta investigación, argumento que las obras, vistas como prácticas discursivas y estéticas, están en constante movimiento, reactivándose y realizando nuevas disputas discursivas en cada nueva configuración. Es decir, con este argumento abogo por el hecho de que las prácticas artísticas y los artefactos físicos relacionados con las mismas (ya sean fotos como obras o registros, así como video, texto, etc.) no son estáticos o cerrados, ni entes totales. Si es así, la apropiación por parte de las instituciones o por la lógica del mercado tampoco ocurre de manera completa e irreversible. El hecho de que documentos textuales y registros fotográficos sean exhibidos y vendidos en las ferias de arte no significa, en mi opinión, la "muerte" completa de la potencia crítica y subversiva de los trabajos. Creo que más que una muerte, la obra pasa por una re-significación del discurso incrustado en la dimensión de lo que llamo el texto-arte (su dimensión estética y material) y pasa a enfrentar, en este nuevo ámbito, otras disputas discursivas, poniendo otros conflictos en evidencia. Por ejemplo, los archivos de Perder la Forma Humana, en el momento que pasan a existir en un ambiente artístico, es decir, que se insertan en el campo del arte, empiezan a obtener una condición de artefacto artístico, cambiando la característica underground y marginal que los significaban en un principio. Y en el proceso, incorporan otros discursos, incluyendo los de los investigadores de la red, además de los del museo y del mercado, estableciendo otras disputas entre lo que significaban estas acciones en su tiempo, lo que sus autores definen como acción artística, el proceso de transformación de estos documentos en nuevos artefactos artísticos y la configuración actual del campo del arte, en su interrelación entre las dimensiones institucional y de mercado.

Y si, según el relato de Longoni, estos materiales causaron tensión dentro de la sala de exposiciones del museo Reina Sofía, todavía dominada por la norma "cubo blanco", este hecho en si ya es uno de los agenciamentos que estos archivos realizan el interior institucional. Por otra parte, la posibilidad de difusión de los archivos, algunos disponibles en línea, provocan otras situaciones de tensión en las que la adquisición por parte de los coleccionistas y las instituciones requiere la imposición de una ley de derecho de copia en el mismo, que no siempre se cumple. Por otra parte, la socióloga Fernanda Carvajal pone en tela de juicio el hecho de que esta facilidad de circulación pueda servir paradójicamente a una valorización mercantil de los archivos. Esta discusión inserta un ruido dentro del campo del arte, poniendo en relieve las reglas de transformación de los objetos en artefactos artísticos y las posibilidades de crítica a estas reglas a través de estos mismos objetos. También incluye la discusión sobre el rol de los investigadores de la red que, como comisarios de la muestra, se han convertido en agentes de la transformación del estatus de esos archivos dentro del campo del arte. ¿Qué es hacer visibles estos archivos?, ¿Introducirlos en la esfera pública? Y si tenemos en cuenta que el espacio público es el campo del arte, ¿cómo esperar que estos archivos ahí visualizados no participen de las normas y discursos que estructuran este espacio? Estas son preguntas que me gustaría incluir en este debate acerca de la "mercantilización" de los documentos que se muestran en el relato de las investigadoras creadoras de Perder la Forma Humana.

Por otra parte, según André Mesquita recordó en su discurso, algunas de las acciones llevadas a cabo durante ese período, aunque imposibles de reanudar y rehacer, si no como puesta en escena, repercutirán en nuevas acciones realizadas en el período actual. Acciones de intervención urbana y activismo que fueron significativas en el momento que se realizaron por primera vez y que actualmente sólo son accesibles a través de los mismos registros, no son sólo meros documentos cuyo único destino es ser apropiados por el discurso institucional y de mercado. También son una potencia y un registro colectivo de acción que se renueva en nuevos manifiestos e intervenciones urbanas. André recuerda el caso de una acción del colectivo paulistano 3NÓS3 que se llamaba Ensacado. El grupo salió por la ciudad de São Paulo poniendo bolsas en la cabeza de las estatuas de monumentos importantes. Luego llamaban a las redacciones de los periódicos de la ciudad denunciando la acción, creando un hecho real en la prensa. La ocupación del espacio público realizada (la ciudad y el espacio público) en 1979, apareció de nuevo en 2015 en el contexto de las ocupaciones de las escuelas estatales de São Paulo. Los estudiantes pusieron una bolsa en la cabeza del monumento al explorador Fernão Dias, que dio nombre a la escuela. Mesquita revela que al cuestionar a los estudiantes sobre la idea de embolsar el monumento ninguno de ellos citó la acción de 3NÓS3, dijeron que lo habían creado ellos. La acción de los estudiantes cuestionó el hecho de que hay un monumento a un asesino de miles de indígenas en su escuela (al igual que en 2013 en los graffitis en el Monumento a las Banderas, situado frente al parque Ibirapuera). Nuevos contextos, nuevas preguntas, hechas desde prácticas similares que muestran cómo las prácticas estéticas y activistas pueden suceder una y otra vez, de maneras igualmente significativas.

Día 2 (13.04)

El último día del seminario Futuro Progresivos tenía apenas una mesa. En esta se discutió la articulación política de los movimientos sociales y grupos de artistas llamada coordinadores de cultura que marcó la escena política y artística chilena durante los años 1980. Participaron de la mesa la activista feminista chilena Kena Lorenzini, del grupo Mujeres por la Vida, el artista y activista Havilio Pérez, también miembro de la APJ y otra vez Antonio Kadima (Taller sol) y Alberto Díaz (APJ).

La primera en hablar fue Kena Lorenzini. Con un discurso bien humorado, la feminista relató el proceso de formación de Mujeres por la Vida, un grupo formado en 1983 por disidentes mujeres de diversos partidos políticos de la época, desde el Partido Democracia Cristiana (centro-centro) hasta el MIR (Movimiento izquierda revolucionaria). Las mujeres se reunieron en torno a un grupo independiente dado que no encontraban espacio para sus voces y acciones dentro de las organizaciones de los partidos que participaron, dijo Lorenzini. Las mujeres que se reunieron alrededor del grupo Mujeres por la Vida comenzaron a realizar acciones de intervención urbana, realizando protestas y marchas y otros eventos, en general el 08 marzo. Las acciones eran dirigidas a visibilizar las situaciones de violencia cometidas por el gobierno dictatorial, que en 1983 llegaron al límite. Y la lucha contra la dictadura fue también una lucha por la visibilidad de las mujeres y el papel de éstas en la política y la esfera pública, que reunió no sólo a las mujeres de los partidos políticos, sino también a artistas y otras militantes.

Una acción interesante citada por Lorenzini fue el acto realizado el 08 de marzo de 1989, en el Estadio Nacional, que reunió a cerca de 25 mil mujeres. El evento tomó la forma de una obra de teatro en cuyo guión, donde las mujeres fueron nombradas como brujas, decían frases en las que convocaban a la mujer como una fuerza revolucionaria contra la violencia dictatorial y exigían el reconocimiento del poder de las mujeres en la vida social y democrática chilena. Este 08 de marzo fue uno de los más grandes actos llevados a cabo por el grupo, en el cual participaron tanto las feministas, como las representantes de la población mapuche y mujeres vinculadas al esoterismo. Otra acción icónica del grupo, que ocurrió también a finales de 1980, fue la eliminación de la Llama de la Libertad, monumento en formato de pira, constantemente encendido, creado por Pinochet en 1975 y que homenajeaba al Ejército de Chile y el golpe de estado. El fuego fue apagado con una toalla mojada por el grupo Mujeres por la Vida, en una acción que significó un fuerte rechazo simbólico al poder militarizado representado ahí. El grupo Mujeres por la Vida se mantiene activo y participa en acciones y protestas constantemente desde 1983. Son una importante articulación social de la sociedad civil chilena por los derechos de las minorías hasta hoy en día.

El segundo momento de la mesa incluyó la presentación de los llamados coordinadores de cultura. El proceso, reportado por Kadima, Peres y Díaz , se trató de la re-articulación popular en torno a la cultura después del golpe militar. Kadima comienza recordando el vacío cultural creado por la dictadura tras el asesinato o exilio de varios intelectuales y artistas como es el caso icónico del músico Víctor Jara, gran símbolo de la violencia de la dictadura militar chilena. Sin embargo, en los años posteriores al golpe, un proceso de rearticulación popular se lleva a cabo, al igual que los grupos artísticos universitarios que surgieron en el momento (como APJ), ocurrió también la Fundación del cine Normandie, en, entre otras actividades que provocaron un movimiento de sectores estudiantiles y artístico en ese tiempo. Este movimiento se expande en 1980, cuando se produce, según los exponentes, una explosión de la acción colectiva. En ese momento, los grupos feministas (como Mujeres por la Vida) se aproximan de las agrupaciones de artistas, y trabajan de manera conjunta y en colaboración en acciones cruzadas. Además, los sindicatos y los movimientos populares que resistieron el golpe militar también se acercan a estos otros grupos que surgieron después.

A principios de la década de 1980 tiene lugar el primer congreso de cultura en el país, un evento que se convierte en el detonante de la articulación colectiva organizada. El acercamiento del movimiento de derechos humanos, los movimientos feministas y agrupaciones de artistas (como el Taller Sol y APJ) da lugar a la creación de una Jornada de derechos humanos y culturales, que tuvo lugar en el año 1982. Es a partir de allí que se decide por la creación de un primer cuerpo de coordinación para los artistas y trabajadores de la cultura. Estos coordinadores se organizaron en un equipo que trabajó políticamente para el desarrollo cultural y artístico de la sociedad civil chilena, pero sin crear formaciones partidistas, dice Kadima. La misión de la coordinación era crear condiciones para el desarrollo de la cultura y facilitar la actividad de los artistas y trabajadores de la cultura. Desde esta organización, se llevó a cabo un segundo congreso que reunió a más de 500 personas de todo el mundo. Sin embargo, la crítica hecha por Kadima fue que, un año después de la creación del primer órgano de coordinación, estas organizaciones comenzaron a ser cooptadas por los partidos. Los puestos de dirección estaban ocupados por representantes partidarios, que en ese momento estaban perseguidos por la dictadura y con poco espacio en la esfera política institucional. Este movimiento dio lugar a lo que se conoció más tarde como gremios, que se partidizaron y se convirtieron en estructuras excluyentes, provocando la dispersión de los artistas.

Esta última mesa sobre las organizaciones populares y la sociedad civil también tuvo breves informes sobre el proceso de las brigadas murales chilenas, que se menciona brevemente en el día anterior. En esta parte de la historia, me fue imposible no hacer relaciones con el contexto del Recife de la década de los 80’, en el cual las brigadas artísticas participaron en las campañas políticas en la democracia recién nacida. En Chile, estas brigadas tuvieron un período de fuerte expansión en la década de 1960, durante la campaña pro-Allende, y oscilaron entre las iniciativas populares y las campañas de los partidos. La investigación de la relación entre las brigadas artísticas de Recife y Santiago se explorará más tarde, en otro texto sobre el tema.